Sempre fui seu inimigo, é o mais justo a dizer. Ainda menino, nunca quis cruzar seu caminho. Todas as noites, vinha me visitar e eu o evitava. A ponto de fazer com que desistisse de persuadir-me a levar uma vida melhor, regalada de momentos irresgatáveis. Perderam-se todos.
Moleque e por toda a juventude, dava-lhe surras regulares, todas as noites. Durante a tarde sequer o via tentando me amolar. Eu era implacável, impossível de demover. Venci a maior parte dos nossos embates. Te dexei humilhado, tantas vezes, contemplando o próprio fracasso de voltar para as suas terras sem cumprir o ofício mais básico.
Hoje, sofro o mais imenso dos remorsos. Quero você de volta. Quero te ver, pelo menos um pouco. Redimir-me, se é que possível, por uma vida inteira de zombaria e escárnio. Por tantas auroras orvalhadas de cafeína e olhos arregalados. Por tantas orgias cerebrais que duram até hoje. Pela amizade inquebrável que fiz com o alvorecer e seus irmãos celestes.
Velho de espírito e desmoralizado, preciso me entorpecer para conseguir o mínimo da sua atenção. Embriago-me em cápsulas que transportam para o seu mundo, onde me espera a pior das expressões, o mais cruel e fixo dos olhares. Me apunhala fundo nos olhos. Na testa, as rugas de reprovação e na boca um sopro que logo me joga de volta ao mundo em que um dia fui rei.
Hoje, neste mundo, sou um pobre coitado. Um mendigo sujo, maltrapilho, ainda cafeinado e mais vulgar que antes. Esperançoso de que me aceites de volta. Mesmo entendendo, com a sabedoria de alguma idade, que és soberano em tudo. Você estava aqui quando eu cheguei e, assim como o resto do Universo, nem vai notar quando eu partir.
Ainda assim, mesquinho e humano que sou, permito-me fazer o que se faz de melhor nessa terra e suplico. De joelhos dobrados, doídos e humilhados, olhos marejados, mais de ódio e cansaço que de tristeza, imploro, do fundo do coração, que me acolha de volta em seus braços.
Preciso de você. Preciso dormir.





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E eu que imagine que você estivesse
dormindo nestes quase cinco meses…
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Meu amigo Rodrigo, permita-me um relato pessoal. Até um ano atrás minha vida estava uma loucura, principalmente por causa da carga de trabalho (cheguei a acumular simultaneamente três compromissos). Havia o retorno financeiro, mas minha saúde física e mental estava indo pro espaço. Tive que fazer escolhas e resolvi priorizar minha qualidade de vida. Revi prioridades e objetivos Mudei a forma de trabalho e saí do sedentarismo através da corrida, atividade pela qual me apaixonei completamente. Hoje sequer consigo me imaginar no estilo de vida anterior. Então se pudesse lhe dar um “conselho”, este seria “anima sana in corpore sano”. Desejo-lhe saúde, meu velho amigo.
Grande chapa Giordano! Conselho mais sábio, impossível. A dica que eu preciso (e talvez possa me ajudar também) é, como começar?
Saudade cabra!
Bressane, lindo texto, emocionante e poético.
Deve ser mal de fotógrafo, pois meu marido é igualzinho,rs. bejios
Valeu Carol!